"Voltei para delinquir" (e eu para falar de conjugação verbal)

pixação São Paulo: conjugação verbal

Conjugar um verbo é o mesmo que “mudá-lo de forma” de acordo com um paradigma. Assim dizemos: eu amo, tu amas, ele/ela ama... e por aí vai. A forma do verbo amar varia segundo a pessoa (e pode variar, ainda, de acordo com número, modo, tempo e voz). Nem todos os verbos, contudo, se comportam tão bem assim dentro de um paradigma.

Verbos regulares e irregulares

Você deve lembrar que, além de verbos regulares (como amar), há também os verbos irregulares. Pense em crianças que estão em fase de adquirir a língua e dizem "eu sabo" e "eu ouvo". Esses verbos, chamados de irregulares, são aqueles que fogem do seu paradigma de conjugação. Note que "sabo" e "ouvo" são generalizações criadas a partir de verbos regulares de mesma terminação. Por exemplo, beber (eu bebo) e partir (eu parto), respectivamente.

Verbos defectivos e abundantes

Há também os verbos defectivos e os abundantes. Os defectivos (como o verbo da foto) não possuem todas as formas conjugadas dentro de um paradigma. Por exemplo, o verbo colorir apresenta a forma de terceira pessoa "ela colore", mas não a de primeira pessoa "eu coloro". Já os verbos abundantes, como o nome já sugere, têm mais de uma forma para expressar a mesma função. Um exemplo é o verbo pagar, que tem duas formas participiais: pagado e pago.

Para saber mais

Para quem tiver curiosidade em aprender mais, a Gramática de Bechara é uma fonte acessível de pesquisa sobre o assunto. Para quem tiver dúvida sobre conjugação e precisar de uma resposta rápida, já falamos sobre isso aqui! Uma consulta a um dicionário digital já resolve.

Versão final: perfeita para a revisão de texto

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Por que a versão final de um texto é tão importante para quem vai revisar o texto? Revisores são pessoas chatas, que querem ter o controle de tudo? Não exatamente... A exigência de trabalhar na versão final de um texto não é um capricho.

Planejamento da revisão de texto

Em primeiro lugar, com essa versão em mãos, é possível elaborar um orçamento mais preciso, além de planejar um cronograma de entrega de maneira bem organizada. Planejamento é uma etapa fundamental de qualquer projeto!

A visão de todo

A primeira leitura do material será mais completa se for feita na versão final. Isso é particularmente importante para o caso de profissionais que avaliam aspectos textuais que vão além da correção gramatical e olham para a progressão e coerência das ideias, o conteúdo bem como para a formatação.

O texto ideal para a revisão

Por último, devemos pensar que, se o texto ainda será modificado, editado ou se ainda vai incorporar o feedback de orientadores, coautores ou amigos... então ele ainda não está pronto! Ou seja, não está em sua melhor forma para uma leitura de revisão de texto. Tudo tem um tempo certo, e o ideal é que revisores trabalhem na versão finalíssima de um texto. Isso é bom para os dois lados, tanto para quem revisa quanto para quem assina o texto.

Linguística e Matemática lado a lado

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Uma teoria semântica pode ser formulada em termos matemáticos — por exemplo, com base na teoria dos conjuntos, na álgebra e na lógica. Um conjunto é um grupo de objetos que representa uma unidade, isto é, podemos ter um conjunto X, com 3 objetos; um conjunto Z, com 100 objetos e por aí vai. Os membros de um conjunto podem ser números, símbolos, nomes ou outros conjuntos. Visualmente, sua representação é fácil de ser reconhecida: os membros de um conjunto aparecem listados entre chaves.

Conjunto A = {Leonardo, Raffaello, Donatello, Michelangelo}

A partir do conjunto acima, podemos extrair diversas relações, como a de pertencimento e não pertencimento, como apresentado a seguir, nessa ordem.

Leonardo ∈ {Leonardo, Raffaello, Donatello, Michelangelo}

Caravaggio ∉ {Leonardo, Raffaello, Donatello, Michelangelo}

Isto é, Leonardo é um membro do Conjunto A, mas Caravaggio não é. Sem falar em outras relações.

Por exemplo, um conjunto B é um subconjunto de A se todos os membros de B também são membros de A.

Conjunto B = {Leonardo, Raffaello}

Nesse caso, B ⊆ A.

Certas operações também podem ser estabelecidas entre conjuntos. E algumas são bem famosas, como a união, representada por ∪, e a interseção, representada por ∩. Mas como esse conhecimento é útil para modelar uma teoria semântica?

Vamos falar de adjetivos. Tomemos o exemplo: “Leonardo é um artista italiano”. Podemos pensar nele a partir da teoria de conjuntos. Nesse caso, Leonardo pertenceria a dois conjuntos, o de ‘artistas’ e o de ‘italianos’. Essa relação simples entre o adjetivo e o substantivo que ele modifica é de natureza intersectiva (i.e., há uma interseção entre esses dois conjuntos). Mas nem todos os adjetivos se comportam assim. Em “Pedro é um velho amigo”, o adjetivo é subsectivo, pois se aplica a Pedro apenas na condição de ‘amigo’. Em outras palavras, Pedro pode ser, de fato, jovem.

Por fim, há exemplos (clássicos) ainda mais curiosos, como “um diamante falso”, que não é um subconjunto de diamantes!

O que é Gramática Universal?

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O termo Gramática Universal, popularizado por Noam Chomsky nos anos 1960, é bem conhecido entre linguistas, mas causa muita confusão entre o público geral.

Já me perguntaram se existiria uma única gramática para todas as línguas e se as línguas seriam todas iguais. Não é nada disso! O linguista David Pesetsky observa que se trata de um termo técnico da Linguística, que não deve ser interpretado com o sentido de “uma gramática que é universal”. O termo foi usado por Chomsky em sua famosa obra Aspects of the theory of Syntax (1965). No entanto, não foi ele quem o inventou. Segundo Pesetsky, ele adaptou um termo usado por gramáticos franceses do século XVII ao fazer uma busca pelas raízes históricas das ideias que estava elaborando. O termo pegou e perdura até hoje. Mas, afinal, o que é Gramática Universal. Segundo Pesetsky:

"É tudo o que subjaz a nossa habilidade de adquirir e usar as línguas que nós, como uma espécie, de fato adquirimos (e usamos)—especialmente aqueles aspectos dessa habilidade que parecem particulares à língua."

Por exemplo, o autor explica que ter uma boca com determinado formato é uma pré-condição para se falar inglês, mas isso não seria parte da GU! A Gramática Universal abrange as propriedades mentais que estão por trás das leis que regem a estrutura das sentenças. Essas propriedades são parte da GU, uma vez que seriam comuns a todas as línguas do mundo!

Enfim, as línguas têm muito em comum, mas as suas similaridades estão longe de serem óbvias. Por isso, linguistas devem pesquisar e analisar a fundo as estruturas e as estratégias presentes nas diversas línguas para desvendar os seus pontos comuns.

Sextou e a criatividade linguística

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"Uhu, sextou!". Há grandes chances de você já ter ouvido (ou mesmo entoado) esse grito de liberdade em uma sexta-feira no trabalho. É o mesmo que dizer: "a sexta-feira chegou" ou "já é sexta-feira".

Uma palavra inventada?

Esse novo termo é formado por uma base (ou raiz), sext-, que vem do nome sexta-feira, mais a marca de flexão verbal -ou, que encontramos em verbos como andou, beijou ou dançou. Esse tipo de criação recente no português é muito interessante e ilustra alguns fatos com os quais linguistas já se acostumaram.

A formação de palavras

Morris Halle, um estudioso brilhante, observa que:

"falantes de uma língua normalmente têm conhecimento não apenas sobre as palavras da língua, mas também sobre a sua composição e estrutura."

Isso é verdade, como o simples exemplo de sextou nos mostra. Os falantes tomam uma base nominal e, a partir dela, formam uma nova palavra. Isso é feito com o acréscimo de -ou. Note que essa marca de flexão identifica a terceira pessoa do singular de verbos iniciados em -ar. Os exemplos a seguir deixarão tudo mais claro: andar-andou, beijar-beijou e dançar-dançou. O novo verbo criado pertence a esse grupo: o dos verbos conhecidos como de "primeira conjugação".

Criatividade e sistematicidade

Isso não é um fato aleatório, mas sistemático. De forma geral, essa é a classe default quando criamos novos verbos. A sua escolha não tem tanto a ver com a vogal -a de sexta! Diríamos, igualmente, sabadou ou domingou (de sábado e domingo, respectivamente). Sextou ilustra também o potencial criativo da língua. Essa palavra pode não existir no dicionário, mas já existe entre a comunidade de falantes e obedece a regras de formação de palavras do português. Por isso, às vezes é difícil dizer que "tal palavra não existe!", especialmente quando os falantes já a adotaram com tanta facilidade.

As gramáticas (no plural)

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Há dois conceitos importantes de gramática, que, muitas vezes, são ignorados e podem causar muita confusão. Lúcia Lobato discute esse tema, classificando a gramática como um objeto estático ou dinâmico.

A gramática estática e a dinâmica

A gramática estática seria um compêndio de descrições sobre uma língua. É nessa acepção que falamos da “gramática do Bechara”, por exemplo. A autora destaca também a existência de uma gramática de aspecto dinâmico, entendida como uma faculdade mental própria da espécie humana. Afinal:

"todo membro da espécie humana é capaz de adquirir uma língua, sem qualquer ensino, bastando para tanto a experiência do contato com a língua nos primeiros anos de vida."

Como já chegamos à escola com uma gramática, há muita confusão quando se trata do ensino de português (leia mais sobre o tema aqui).

Linguistas e gramáticos

É fácil se perder em discussões sobre o que, afinal, seria certo ou errado. E também é fácil simplificar o tema dizendo que “hoje em dia pode tudo!”. Linguistas, muitas vezes, aparecem como a figura permissiva e irresponsável. Mas não é nada disso! Lobato, por exemplo, defende que o estudo gramatical não deve ser abandonado, mas que professores também não devem ignorar a gramática dinâmica.

Três razões para não ignorarmos a gramática dinâmica

Primeiro, a autora observa que a mesma gramática que está por trás de palavras e orações também está por trás do texto. Segundo, entender os mecanismos que as línguas em geral usam é importante para dominarmos a escrita. E, finalmente, certos procedimentos de ensino ajudam alunos a reconhecerem a sua gramática interna. Elas são, portanto, compatíveis e complementares.

Quem precisa de inspiração para escrever?

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A palavra “inspiração” vem do latim, inspiratio, que quer dizer “bafo ou hálito”. Em uma imagem mais agradável, esse “bafo” seria um “sopro” de criatividade que estimula uma pessoa a ter ideias ou a realizar algo.

Um texto impecável, de primeira?

A ideia de inspiração é muito presente no mundo das letras. Quem nunca se esquivou de escrever um texto por “falta de inspiração”? Ou quem nunca produziu algo de que se orgulhou e atribuiu isso a uma inspiração súbita? Seja como for, o fato é que, quando temos de produzir um texto, raramente somos tomados por uma força mágica que sopra palavras em nossos ouvidos. Essa ideia, aliás, origina o mito de que bons escritores sentam-se para escrever e, em poucos minutos, têm em mãos a versão final (e impecável) de um texto. Esse tipo de ideia é responsável por deixar muitas pessoas imóveis diante de uma folha em branco. Mas a ideia realmente não é redigir uma versão final, de primeira.

O processo de escrever, ler e reescrever

A edição e a revisão de texto são partes importantíssimas do processo! Não devemos deixá-las de lado. A grande escritora Maya Angelou observa que:

"A gente se encanta com a beleza da borboleta, mas raramente reconhece as mudanças pelas quais ela passou para alcançá-la."

Na escrita, as transformações também importam. Escrever, apagar, reescrever, ler o texto em voz alta...

De onde vem a inspiração?

Nesse processo, vamos ver que a inspiração pode ser melhor entendida como um repertório. Isto é, o conjunto de experiências, conhecimentos e leituras que você carrega. Esse repertório vai te ajudar muito a escrever o rascunho do seu texto, que então será lapidado até atingir sua versão final.

Estilos de aprendizagem existem?

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Você provavelmente já ouviu falar sobre estilos de aprendizagem. Psicólogos, educadores e profissionais de diversas áreas discutem os diferentes estilos: visual, auditivo, verbal e cinestésico, para focar apenas nos mais populares. Se as pessoas realmente têm modos diferentes de aprender, então seria interessante entender quais são eles!

Importância dos estilos de aprendizagem para a comunicação

Se pensarmos não só no contexto educacional propriamente dito, mas no contexto da comunicação, de forma geral, esses mecanismos de aprendizagem seriam ainda mais poderosos. Imagine as estratégias que você poderia usar para falar com o seu público sobre os seus projetos, o seu trabalho, a sua marca...

Questionando os estilos de aprendizagem

Há quem questione a própria ideia de estilos de aprendizagem, como o professor de psicologia Bill Cerbin:

"Há formas de ensinar alguns tópicos que são melhores do que outras, apesar dos estilos de aprendizagem dos indivíduos... Se você está pensando em ensinar escultura, não sei se longas descrições verbais seriam uma forma eficaz para que as pessoas aprendam sobre essas obras de arte. Naturalmente, elas são objetos físicos, e você precisa observá-las ou tocá-las."

Mudança de foco

Cerbin muda o foco de atenção do indivíduo (e do seu suposto estilo de aprendizagem) para o conteúdo. Segundo ele, um caminho bem-sucedido é buscar estratégias adequadas ao tópico que você quer transmitir. Seja em um ambiente educacional ou mais comercial, entender as particularidades do conteúdo e as melhores práticas para comunicá-lo é fundamental. Essa é a “mágica”.

A relação entre língua e pensamento

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Entre as perguntas comuns que linguistas ouvem, está a dúvida sobre qual seria a relação entre língua e pensamento. A esse respeito, há duas visões primordiais (e discordantes).

A língua guia ou não o pensamento?

Uma visão destaca a arbitrariedade da língua, que pode ser ilustrada, por exemplo, com a citação de Shakespeare: “se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume”. A outra visão é a de que a língua guia o pensamento. Para Humboldt, por exemplo, “línguas diferentes constituem diferentes visões da realidade”.

Sem palavra não há conceito?

Dados concretos de línguas do mundo nos ajudam a pensar sobre isso. O italiano não tem palavras para “privacidade” ou “saudade”. O turco não possui gênero gramatical. Mas será que isso quer dizer que os italianos não sentem saudade ou não entendem o conceito de privacidade? E qual seria a implicação da inexistência de gênero gramatical para os falantes de turco?

Uma terceira via

Uma terceira visão, orientada por essas questões, reconhece a existência de uma estrutura conceitual, que seria mais universal, além de particularidades típicas de cada língua. Nessa direção, Steven Pinker defende que a língua não é responsável pela maneira como organizamos a realidade de forma geral. Em vez disso, o autor observa que “a língua determina o modo de conceptualização da realidade quando temos de falar sobre ela” (destaque nosso).

Ferdinand de Saussure: referência obrigatória nos estudos linguísticos

Curso de Linguística Geral, Ferdinand de Saussure

Este é um dos primeiros nomes que estudantes aprendem em uma aula de introdução à linguística: Ferdinand de Saussure, um dos mais conhecidos e importantes linguistas do século XIX. Curiosamente, a sua obra mais popular é uma que o próprio Saussure não escreveu.

Curso de Linguística Geral

O Curso de Linguística Geral é um compêndio de anotações de aula dos seus alunos publicado em 1916, três anos após a sua morte. Com ele, aprendemos que uma unidade linguística (grosso modo, uma palavra) é feita da união de dois elementos:

"O signo linguístico une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica."

Significante e significado

Os termos conceito e imagem acústica foram substituídos por significado e significante, respectivamente. E essa é a noção consagrada de signo linguístico com a qual trabalhamos até hoje. Mas Ferdinand de Saussure não teve, em vida, pistas de que seria considerado e estimado como o grande linguista que foi.

Referência obrigatória nos estudos linguísticos

Saussure jamais publicou um livro que refletisse o fôlego do seu trabalho, tinha poucos alunos e somente muito mais tarde em sua carreira foi nomeado professor. E cá estamos, falando sobre uma das primeiras figuras que nos apresentam em uma aula de linguística.