Comunicação, conversa e o princípio da cooperação

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Quando nos comunicamos, nossas conversas não são uma sequência de observações desconectadas umas das outras (embora na Internet muitas vezes elas pareçam ser). Em Logic and Conversation (1975), o filósofo da linguagem H. Paul Grice observou que as conversas são “esforços cooperativos” (esse artigo é uma excelente leitura e bem fácil de achar).

Quando conversamos, cooperamos

Você acaba de conhecer uma pessoa e ela começa a contar uma história: “hoje de manhã, minha irmã me ligou e… ”. Você não vai interrompê-la e dizer “O quê? Você tem uma irmã?!”. Não. Você vai acomodar essa informação nova com naturalidade e ouvir o que ela tem a dizer na sequência, que provavelmente é mais importante. Se alguém diz, numa conversa casual, “cheguei em casa umas 3h”. Você não vai perguntar “sério?! Umas 3h? Isso quer dizer 2h59 ou 3h01? Pra mais ou pra menos?”. Você vai acomodar essa imprecisão porque ela é irrelevante. E se eu digo que estou com fome e, na sequência, pergunto o que tem na geladeira, você provavelmente não vai responder listando itens não comestíveis. “Ah, tem uma garrafa de água, uma bisnaga de super bonder, duas gavetas para guardar legumes, uma bandeja porta-ovos… e uma pizza”. A menos que isso seja um tipo de brincadeira, você vai fazer o possível para dar uma contribuição informativa e relevante (i.e., “tem pizza!”). Mesmo que a pergunta não tenha sido específica: “O que tem pra comer na geladeira?”. Há vários exemplos de como somos cooperativos nas nossas conversas diárias. Mas esse espírito de cooperação desaparece de tempos em tempos. Uma forma de tentar mantê-lo vivo é observar as máximas descritas por Grice.

As máximas conversacionais de Grice

  • A máxima da quantidade: dê todas as informações necessárias, e não mais do que isso.

  • A máxima da qualidade: não dê informação falsa ou que não seja comprovada por fatos.

  • A máxima da relação: seja relevante e fale de fatos que realmente têm a ver com o que está sendo discutido.

  • A máxima do modo (ou maneira): seja perspicaz, breve, organizado. Evite ambiguidades, verborragia e expressões obscuras.

A importância das máximas

Claro que as máximas vão servir ao propósito da conversa em questão. O exemplo anterior da hora pode não fazer sentido em um tribunal, por exemplo, onde a precisão é relevante. Mas o importante aqui é compreender a ideia geral das máximas, ignorando um pouco algumas complicações. Seja qual for o tipo de conversa, não há nada pior do que receber uma enxurrada de dados e informações falsas que não dizem respeito ao que está sendo discutido e que ainda estão mal estruturadas—uma violação das quatro máximas. A máxima da quantidade assegura que a sua contribuição seja informativa o bastante para o contexto da conversa que está acontecendo. Prover muita informação (como no exemplo da geladeira) seria uma forma de violar essa máxima. O seu interlocutor muitas vezes não saberá o que fazer com ela. A máxima da qualidade segue do que Grice chamou de uma supermáxima: “Try to make your contribution one that is true”, ou tente fazer uma contribuição verdadeira. Portanto, não repassar informação que você acredita ser falsa ou informação para a qual você não tem comprovação adequada. Uma máxima simples a ser seguida por qualquer pessoa comprometida com uma conversa séria. A multiplicação de notícias falsas é um exemplo de violação da máxima da qualidade. Aliás, a escolha do termo fake news por si já seria uma violação da máxima do modo, se considerarmos que se trata, para a maioria das pessoas, de uma expressão obscura. Mas vamos falar disso adiante. A máxima da relação assegura a relevância do que está sob discussão. Essa máxima é bastante complexa, como o próprio Grice reconhece. O exemplo anterior da geladeira ilustra também uma violação dessa máxima! Ao listar itens não comestíveis presentes na geladeira, o interlocutor se desviou daquilo que era relevante no momento da conversa. Finalmente, a máxima do modo, segundo Grice, tem menos a ver com o que é dito e mais a ver com como é dito. Aqui podemos incluir algumas batalhas linguísticas sobre escolhas terminológicas e as divisões que o emprego de um ou outro termo é capaz de criar. Nessa categoria, Grice também inclui uma supermáxima: “be perspicuous”, ou “seja claro”. Há, segundo Grice, outras máximas que regem as nossas trocas, de natureza estética, social, moral. Uma delas sugere “seja educado”. E talvez esse seja um excelente começo para mantermos os nossos esforços cooperativos.