Quando a exatidão da linguagem importa

glifos amora consultoria linguística

Estudos em semântica e pragmática nos ensinam que, na linguagem, há várias maneiras de indeterminação do significado. Esses fenômenos são corriqueiros e quase nunca pensamos neles, mas, com certeza, você é capaz de reconhecê-los facilmente.

Três tipos de indeterminação do significado

A subespecificação, por exemplo, é a possibilidade de expressar menos informação do que se poderia expressar. Ela ocorre no uso de expressões comuns como “semana passada”, que não determina um dia particular, mesmo que saibamos exatamente que dia é esse. A imprecisão, por sua vez, consiste em comunicarmos uma informação que se aproxima da informação mais precisa e verdadeira. Ela acontece, por exemplo, quando olhamos no relógio e dizemos que são 10h30, quando, na verdade, são 10h27. Por fim, a vagueza é a expressão de uma informação naturalmente indeterminada ou relativa. Ela se manifesta quando dizemos que uma pessoa é alta, sem, contudo, explicitar um padrão de comparação. O mais interessante sobre essas três formas de indeterminação é que elas são automáticas e não requerem esforço consciente da nossa parte. De fato, não parece haver nenhuma vantagem conversacional em ser super preciso e dizer que são exatamente “10 horas, 27 minutos e 30 segundos”. Igualmente, quando dizemos que alguém é alto, estamos confiantes de que o nosso padrão de comparação está implícito e é compartilhado com nosso interlocutor. Podemos até deixar isso claro: “fulano é alto para a média brasileira”, por exemplo.

Situações em que temos de ser exatos

É possível, contudo, imaginar inúmeras situações em que é necessário ser específico, preciso e exato, particularmente com a palavra escrita. Por exemplo, em textos acadêmicos, citações e referências devem ser bem acuradas. Em relatórios científicos, a descrição de determinado experimento também deve ser precisa. Bulas de medicamento e receitas médicas exigem cuidado e exatidão. E contratos de toda natureza também devem ser bem específicos, de modo a evitar interpretações desfavoráveis a uma das partes.

A indeterminação como fonte de humor

Uma outra forma de indeterminação do significado bastante comum é a ambiguidade. Ela pode acarretar desde humor involuntário (vide algumas manchetes ambíguas) até problemas mais complexos, se pensarmos em alguns dos exemplos acima. Seja como for, é sempre bom ter atenção com palavras e conceitos quando a exatidão da linguagem importar, sem recorrer a estratégias de indeterminação para se esquivar de um bom debate.