Mitos da linguística: o vocabulário esquimó

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A linguística é fascinante. Quem nunca ouviu a história dos esquimós, que usam um número absurdo de palavras para denominar a neve? De fato, a linguística é fascinante, mas não por isso.

Em um artigo tão bem fundamentado quanto divertido, Geoffrey K. Pullum desconstrói essa história, com muita habilidade, em apenas 7 páginas. Primeiro, Pullum retoma o trabalho da antropóloga Laura Martin, que se dedicou a destruir esse mito antes dele. O autor a compara a Sigourney Weaver em Alien. Nesse filme, Weaver tenta exterminar uma criatura assustadora e difícil de matar. Em seguida, Pullum refaz um percurso que mostra como a história surgiu e foi se metamorfoseando ao longo dos anos, ganhando cada vez mais força.

Da fonte original (Franz Boas, 1911), Pullum cita a observação que deu início a tudo. Segundo Boas, assim como o inglês tem raízes distintas para denominar as diferentes formas como a água se apresenta, por exemplo, "liquid" (líquido), "lake" (lago), "dew" (orvalho), "rain" (chuva) e "wave" (onda), o vocabulário esquimó tem raízes distintas para nomear diferentes formas de neve. E Boas registra 4 exemplos: "aput" (neve no chão), "qana" (neve caindo), "piqsirpoq" (neve sendo empilhada pelo vento) e "qimuqsuq" (pilha de neve). O autor observa que, no inglês, os termos correspondentes para neve não são independentes, mas sim construídos como frases que contêm a palavra "neve" (por exemplo, "aput" seria "snow on the ground", ou seja, o mesmo que "neve no chão").

A partir daí, Pullum segue a trilha das subsequentes citações incorretas a esse trabalho, passando por Benjamin Lee Whorf, Roger Brown e outros, além de retomar referências mais populares, como o New York Times, enciclopédias de trívia e programas de TV. E os números só foram aumentando: de 4 para 7, de 7 para 9, de 9 para 100, de 100 para 200 (!). Apesar do trabalho criterioso de Laura Martin nos anos 1980, o que de fato triunfou e sobreviveu ao longo dos anos foram "o descuido acadêmico e o afã popular em aceitar fatos exóticos sobre outras línguas sem qualquer evidência”, nas palavras de Pullum.

No fim das contas, o autor observa que o dicionário registra apenas duas raízes possivelmente relevantes associadas ao vocabulário esquimó para neve: "qankik" (neve no ar ou floco de neve) e "aput" (neve no chão). E o inglês não seria muito diferente disso! Pullum observa que essa língua também tem palavras distintas para denominar as diferentes formas como a neve se apresenta. Além de “snow” (neve), “sleet” (combinação de gelo, neve e chuva), “slush” (neve parcialmente derretida), “powder” (neve seca e leve que acabou de cair) e “blizzard” (tempestade de neve).

A linguística não é fascinante?