Sextou e a criatividade linguística

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"Uhu, sextou!". Há grandes chances de você já ter ouvido (ou mesmo entoado) esse grito de liberdade em uma sexta-feira no trabalho. É o mesmo que dizer: "a sexta-feira chegou" ou "já é sexta-feira".

Uma palavra inventada?

Esse novo termo é formado por uma base (ou raiz), sext-, que vem do nome sexta-feira, mais a marca de flexão verbal -ou, que encontramos em verbos como andou, beijou ou dançou. Esse tipo de criação recente no português é muito interessante e ilustra alguns fatos com os quais linguistas já se acostumaram.

A formação de palavras

Morris Halle, um estudioso brilhante, observa que:

"falantes de uma língua normalmente têm conhecimento não apenas sobre as palavras da língua, mas também sobre a sua composição e estrutura."

Isso é verdade, como o simples exemplo de sextou nos mostra. Os falantes tomam uma base nominal e, a partir dela, formam uma nova palavra. Isso é feito com o acréscimo de -ou. Note que essa marca de flexão identifica a terceira pessoa do singular de verbos iniciados em -ar. Os exemplos a seguir deixarão tudo mais claro: andar-andou, beijar-beijou e dançar-dançou. O novo verbo criado pertence a esse grupo: o dos verbos conhecidos como de "primeira conjugação".

Criatividade e sistematicidade

Isso não é um fato aleatório, mas sistemático. De forma geral, essa é a classe default quando criamos novos verbos. A sua escolha não tem tanto a ver com a vogal -a de sexta! Diríamos, igualmente, sabadou ou domingou (de sábado e domingo, respectivamente). Sextou ilustra também o potencial criativo da língua. Essa palavra pode não existir no dicionário, mas já existe entre a comunidade de falantes e obedece a regras de formação de palavras do português. Por isso, às vezes é difícil dizer que "tal palavra não existe!", especialmente quando os falantes já a adotaram com tanta facilidade.